Cortar as asas da calopsita não é decisão do tutor. A Resolução 1.714 do Conselho Federal de Medicina Veterinária define que a indicação do aparo de penas de voo é competência privativa do médico-veterinário. Fazer em casa, ou pedir para o pet shop fazer por rotina, está fora do que a norma permite.
O ponto que quase ninguém explica é que a regra tem duas camadas. Uma é profissional: o CFMV definiu quem pode indicar o procedimento, em que condições e o que está proibido em qualquer circunstância. A outra é sancionatória, e é a que mais gente desconhece: a multa por maus-tratos a animais chega a cinquenta mil reais por animal, e o valor antigo que ainda circula na internet está revogado.
Neste guia você vai encontrar o que a resolução determina, o que ela proíbe expressamente, em quais situações o aparo é contraindicado, quanto custa hoje uma autuação por maus-tratos, o que fazer se a sua ave já teve as penas cortadas e por que a recomendação de quem cria há duas décadas continua sendo manter as asas íntegras.
Você não pode decidir sozinho cortar as asas da sua calopsita. A indicação é competência privativa do médico-veterinário e precisa de justificativa técnica registrada em prontuário.
- CFMV: Resolução 1.714, de 28 de agosto de 2026, define que só o veterinário indica.
- Proibido por conveniência do tutor, para facilitar contenção ou por estética.
- Proibido corte unilateral, corte radical e corte de pena em crescimento.
- Exige avaliação prévia detalhada e registro em prontuário.
- Multa por maus-tratos: de 1.500 a 50 mil reais por animal, desde março de 2026.
- Se houver indicação, exija a justificativa técnica por escrito e guarde.
Cortar as asas da calopsita: o que é o aparo de penas de voo
O termo popular é corte de asa, mas ele é impreciso e atrapalha o entendimento. Nada é amputado. O que se corta são as penas primárias, as maiores penas da ponta da asa, responsáveis pela sustentação. Elas voltam a crescer na muda seguinte, o que costuma levar de seis meses a um ano dependendo do ciclo da ave.
O nome técnico usado nas normas é aparo de penas de voo. Vale conhecer esse termo, porque é assim que a legislação e o veterinário vão se referir ao procedimento, e é assim que você encontra a documentação oficial.
Existe um detalhe anatômico que a resolução destaca e que explica boa parte da mudança. As penas em crescimento, chamadas de penas de sangue, ainda têm vascularização ativa. Cortar uma delas causa sangramento, que pode ser grave em uma ave do porte da calopsita, além de dor e lesão no folículo. Identificar quais penas estão nessa condição exige conhecimento técnico, e é uma das razões pelas quais o procedimento saiu das mãos do tutor.
Aparo de penas e a legislação de maus-tratos
O artigo 29 do Decreto 6.514/2008 define como infração administrativa contra a fauna praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos. A calopsita está coberta: o dispositivo menciona expressamente animais exóticos, e não existe brecha por conta da origem da espécie.
O aparo de penas não aparece nomeado nesse artigo. Mas a Resolução CFMV 1.714/2026 descreve em detalhe o que caracteriza um procedimento mal executado: corte unilateral, corte radical que elimine a sustentação, corte de pena em crescimento, e qualquer intervenção que cause dor, sangramento, lesão folicular ou trauma. Um corte feito nessas condições produz exatamente o resultado que o artigo 29 descreve.
Somando as duas coisas, a leitura prática é esta: o procedimento sem indicação veterinária, feito por quem não sabe distinguir uma pena madura de uma pena de sangue, não é um costume aceito. É um risco concreto, e o custo desse risco não é pequeno.
Quanto custa: a multa por maus-tratos
Aqui está a informação que circula errada no nicho inteiro. Muita gente ainda repete que a multa por maus-tratos é de até 3 mil reais. Esse valor está revogado.
O Decreto 12.877/2026 deu nova redação ao artigo 29 do Decreto 6.514/2008. A faixa da multa subiu de forma expressiva, e o texto ainda criou a possibilidade de majoração em circunstâncias excepcionais.
| Situação | Faixa da multa por animal | Base legal |
|---|---|---|
| Valor em vigor | R$ 1.500 a R$ 50.000 | Art. 29 do Decreto 6.514/2008, com a redação do Decreto 12.877/2026 |
| Circunstâncias excepcionais | Até vinte vezes o teto | Exige decisão fundamentada em elementos objetivos |
| Redação anterior, revogada | R$ 500 a R$ 3.000 | Texto original do Decreto 6.514/2008 |
O texto também lista circunstâncias agravantes que a autoridade deve considerar ao fixar o valor. Duas merecem atenção de quem tem ave em casa: a prática da infração pelo próprio responsável pela guarda do animal, e a violação do dever de cuidado, bem-estar ou segurança por parte de quem responde por ele.
Isso não significa que quem apara as penas da calopsita vai ser multado em 50 mil reais amanhã. Significa que o valor deixou de ser simbólico e que a fixação passa por critérios de gravidade, extensão do dano e reprovabilidade da conduta, com decisão fundamentada. O cálculo é feito por animal.

A Resolução CFMV 1.714/2026: quem decide agora
A Resolução 1.714 do Conselho Federal de Medicina Veterinária, de 28 de agosto de 2026, publicada no Diário Oficial da União em 1º de setembro, estabelece critérios técnicos, éticos e de bem-estar animal para a indicação e a realização do aparo de penas de voo em aves mantidas como animais de companhia.
O princípio central da norma é direto: a indicação depende de avaliação e justificativa técnica fundamentada pelo médico-veterinário, e tem como prioridade a segurança da ave. O aparo não é decisão automática nem solução de conveniência.
O que a resolução proíbe expressamente
A norma deixa claro que o aparo não deve ser feito por razões estéticas, para facilitar indiscriminadamente a contenção da ave ou por mera comodidade de quem cuida dela. Ou seja: corto para ela não fugir e corto para ficar mais fácil de pegar deixaram de ser justificativa aceitável.
Quando há indicação técnica, a intervenção precisa ser leve, conservadora, bilateral e funcional. Entre as práticas vedadas estão o corte unilateral, que desequilibra a ave, e o corte radical ou drástico, que elimina a capacidade de estabilidade e sustentação e pode provocar quedas abruptas ou em espiral. Penas em crescimento e vascularizadas não podem ser cortadas.
São vedados ainda procedimentos que causem dor, sangramento, lesão folicular, traumas ou que predisponham a ave à síndrome do arrancamento de penas. E existe um critério funcional que resume tudo: mesmo com a restrição parcial do voo, a ave precisa preservar o controle postural e a capacidade de planar com segurança até o solo.
O que o veterinário precisa avaliar antes
A resolução detalha o que o profissional deve considerar antes de qualquer decisão. É uma lista longa, e ela mostra bem por que o procedimento saiu do alcance do tutor.
| O que deve ser avaliado | Por que importa |
|---|---|
| Espécie e seu padrão natural de voo | Cada espécie voa de um jeito e perde sustentação de forma diferente |
| Conformação da asa e distribuição das penas de voo | Define quais penas sustentam e quais não |
| Condição musculoesquelética | Ave com musculatura comprometida corre mais risco na queda |
| Escore corporal e massa muscular peitoral | Peso e músculo do peito determinam a capacidade de planar |
| Idade e condição clínica geral | Filhote e ave debilitada respondem de forma diferente |
| Estágio de muda | Muda em curso muda completamente o quadro |
| Identificação das penas de sangue | Cortar pena vascularizada causa sangramento e lesão no folículo |
Quando o aparo é contraindicado
A norma estabelece limites claros. O aparo é contraindicado em aves em reabilitação para soltura, em animais destinados à conservação, em aves clinicamente debilitadas, com distúrbios locomotores graves ou em situação de estresse severo.
E há um ponto que vale para todos os casos: o procedimento não pode substituir medidas essenciais ao bem-estar. Manejo ambiental adequado, enriquecimento ambiental, treinamento, socialização e guarda responsável continuam sendo o que realmente resolve. O responsável deve ser orientado a oferecer um ambiente compatível com as necessidades biológicas, fisiológicas e comportamentais da ave, e toda informação sobre o procedimento fica registrada no prontuário.

Por que a recomendação é manter as asas íntegras
A norma define o que é permitido. Mas existe uma segunda pergunta, que é a que interessa para quem convive com a ave todo dia: vale a pena?
Uma calopsita que voa se movimenta mais, mantém a musculatura peitoral em condição melhor e queima energia de um jeito que a ave sem voo não consegue. O voo também é comportamento natural da espécie, e restringi-lo tem impacto no lado comportamental, não só no físico. Ave entediada e com pouca atividade tende a desenvolver problemas que aparecem depois, como arrancamento de penas e vocalização excessiva.
Existe também a questão da segurança, que muita gente inverte. O argumento comum é que a ave sem voo não foge e não se machuca. Na prática, a calopsita que não consegue planar cai. E cai no chão, onde estão as pessoas passando, o cachorro, a porta que fecha e a panela quente. Ave com voo íntegro tem controle de trajetória e desvia.
Nos meus 20 anos criando calopsitas, o que vi foi isso: as aves que mantiveram as asas íntegras ficaram mais ativas, mais confiantes e, curiosamente, mais próximas de quem cuida delas. A ave que voa vem até você por escolha. A ave que não voa depende de você, que é uma relação diferente. Se der para escolher, escolha manter as penas. — Erick Oliveira
Ambiente seguro é o que resolve o problema que o aparo tentava resolver. Janela e porta fechadas ou com tela, ventilador desligado, espelho coberto, panela na chapa com a ave em outro cômodo. Isso protege mais que penas cortadas, e sem custo legal nenhum.
E se a sua calopsita já teve as penas cortadas?
Não entre em pânico. A resolução do CFMV disciplina a atuação profissional daqui para a frente e não cria efeito retroativo sobre um corte feito antes dela. E as penas voltam a crescer na próxima muda. O que você precisa é acompanhar o processo com atenção.
Durante o crescimento, as penas novas chegam sem a proteção das penas antigas ao redor, o que as deixa mais vulneráveis a quebra. Pena de sangue quebrada sangra e é urgência veterinária. Nessa fase, reduza a altura dos poleiros, evite sustos e mantenha o ambiente calmo.
E não repita o corte por conta própria enquanto a ave se readapta. Muita calopsita que passou meses sem voar tem um período desajeitado quando as penas voltam, batendo em móveis e errando o pouso. Isso é normal e passa. Ela está reaprendendo a musculatura e a trajetória.
Erros comuns sobre corte de asas
- Achar que é permitido porque todo mundo faz. Prática difundida não é prática regular.
- Repetir o valor de 3 mil reais como multa atual. Esse teto foi revogado.
- Pedir o corte no pet shop sem avaliação veterinária. A indicação é competência privativa do médico-veterinário.
- Cortar só uma asa. É vedado pela resolução e desequilibra a ave, aumentando o risco de queda.
- Cortar durante a muda. É quando existem penas de sangue, e cortá-las causa sangramento e lesão folicular.
- Usar o aparo no lugar de ambiente seguro. A norma é explícita: o procedimento não substitui manejo, enriquecimento e guarda responsável.
- Não guardar a justificativa técnica. Sem documento, você não tem como comprovar que houve indicação profissional.
Perguntas frequentes sobre corte de asas em calopsita
Cortar as asas da calopsita é ilegal?
A Resolução CFMV 1.714/2026 tornou a indicação do aparo competência privativa do médico-veterinário, então quem faz por conta própria está fora do que a norma prevê. Se o corte causar dor, sangramento ou lesão, entra no campo do artigo 29 do Decreto 6.514/2008, que trata maus-tratos como infração administrativa. A caracterização em cada caso depende da autoridade competente. O caminho seguro é único: só faça com indicação veterinária documentada.
O pet shop pode cortar as penas da minha ave?
A indicação do procedimento é competência privativa do médico-veterinário. Se o estabelecimento tem veterinário responsável que avaliou a ave e registrou a justificativa técnica no prontuário, o caminho está correto. Se é o banhista cortando por rotina, não está.
O corte dói na calopsita?
Pena madura já não tem vascularização, e o corte dela não dói, do mesmo modo que cortar a unha na parte sem polpa não dói. O problema é a pena em crescimento, que é vascularizada. Cortá-la causa dor, sangramento e lesão no folículo, e é uma das práticas expressamente vedadas pela resolução. Distinguir uma da outra na prática exige conhecimento técnico.
Cortar as asas deixa a calopsita mais mansa?
Não. A ave sem voo fica dependente, e dependência não é mansidão. Ela aceita a mão porque não tem para onde ir, não porque confia em você. Mansidão se constrói com rotina, tempo e reforço positivo, e o processo funciona com a ave voando normalmente — veja o passo a passo para amansar a calopsita. A resolução do CFMV, aliás, veda expressamente a indicação por conveniência do tutor.
Quanto tempo demora para as penas crescerem de novo?
Depende do ciclo de muda da ave. Em geral, de seis meses a um ano para a asa voltar à condição funcional. Não há como acelerar o processo, e forçar a queda das penas restantes é maus-tratos. O que ajuda é dieta adequada, já que pena é feita de proteína e a muda exige nutrição de qualidade. Veja como montar a alimentação da calopsita.
Existe alguma situação em que o aparo é indicado?
A resolução não proíbe o procedimento em absoluto. Ela exige que a indicação seja tecnicamente fundamentada e priorize a segurança da ave, e lista as situações em que ele é contraindicado. Cabe ao veterinário avaliar cada caso individualmente. O que a norma retirou foi a decisão automática e a justificativa por conveniência.
Onde encontro a resolução na íntegra?
A Resolução CFMV 1.714/2026 está disponível no site do Conselho Federal de Medicina Veterinária, na seção de legislação. Vale baixar e levar impressa na consulta se você quiser conversar com o veterinário sobre os critérios.
O que levar deste guia
Cortar as asas da calopsita saiu do campo do costume e entrou no campo da norma. Só o médico-veterinário pode indicar o procedimento, com justificativa técnica e registro em prontuário, e a resolução lista o que está proibido em qualquer circunstância. Em paralelo, a multa por maus-tratos do artigo 29 do Decreto 6.514/2008 vai de 1.500 a 50 mil reais por animal, podendo ser majorada em casos agravados.
Se você acha que precisa, procure um veterinário especializado em aves, peça a justificativa por escrito e guarde o documento. Se puder escolher, deixe as penas íntegras e resolva a segurança pelo ambiente. É o que protege a ave e você.
A sua calopsita voa dentro de casa ou você mantém as penas aparadas? Conta nos comentários como é aí, que a discussão ajuda outros tutores. E me segue no Instagram em @manualdacalopsita para acompanhar o que muda na criação de aves no Brasil.
Este guia é revisado sempre que houver mudança nas normas citadas. Última revisão em setembro de 2026, com base na Resolução CFMV 1.714/2026 e no artigo 29 do Decreto 6.514/2008, na redação dada pelo Decreto 12.877/2026.